quinta-feira, 22 de setembro de 2011

YTAPECU - RIO CAMINHO ANTIGO

Nossa postagem de hoje volta a ser  o trabalho elaborado pelo pesquisador Jose Alberto Barbosa, nosso colaborador de Jaraguá do Sul. Região esta que abriga o estuário do rio itapocu, por onde passava o Caminho do Peabiru, saindo da orla marítima de Santa Catarina e adentrando ao sertão.



Mas afinal de contas, para que abrir um caminho tão grande, em forma de vala, forrado de gramas, se não fosse para uma grande quantidade de gente usar e por muito, muito tempo? E, especialmente, quem foi o misterioso autor desse quase fantástico caminho? É do que tratarei a seguir, resumindo a lenda de Tumé (Sumé) e analisando-a criticamente. E demonstro que Tomé ou Tumé (Somé; Sumé) não houve tão somente um deles dentre os índios, porém, houve dois, um muito mais antigo, em tempos arcanos; o outro em tempos da abertura do Peabiru, talvez. Porisso que adiante, para facilitar a compreensão desse exame, apelo-os respectivamente Tomé I e Tomé II (ou Tumé I e Tumé II).




pois bem, prossigamos no exame dessa curiosa personagem.


1 .        Como disse, os índios tupis e guaranis, perguntados pelos primeiros europeus – em várias regiões e circunstâncias - sobre quem tinha aberto aqueles caminhos que subiam ou contornavam serras e morros, varavam campos e matos, respondiam invariavelmente que não tinham sido eles próprios, mas que Tomé abrira-lhes tal caminho. Quem seria esse misterioso personagem? Um chefe inca? Um rei ou enviado procedente de terra distante? Onde teria iniciado esse caminho, nos Andes ou no Atlântico? E quando teria ele aberto esse sistema continental de comunicação? Tudo são incógnitas. Quase se pode dizer que Tomé – mais conhecido como Sumé, Zumé – soa como um tema novo nos estudos sobre o folclore brasileiro. Ficou por séculos relegado. Há pouco mais de três décadas, quando Francisco de Oliveira Filho, cultivando o gosto pelos temas folclóricos lá na sua Boituva, cidade paulista distante 111 km em linha reta desde a Capital do Estado, se interessou pela lenda de Tomé, ou que o seja, de Sumé, não achando nada a respeito, foi socorrer-se nos conhecimentos do advogado e folclorista Prof. João Chiarini, lá em Piracicaba. E este, coçando a cabeça, procurou algum livro que tratasse de tal mito. Não achou. Buscou, diz ele, em cerca de três mil livros sobre folclore e, espantosamente, não achou nenhum que tratasse do tema. Finalmente, salvou-se com um escrito do paranaense Romário Martins, que veio a colher no livro do igualmente paranaense Benedito Nicolau dos Santos Filho e intitulado “Lendas e Tradições do Paraná”, editado em 1972 pelo Conselho de Ensino e Pesquisas da Universidade Federal do Paraná. Todavia, Romário Martins abordara o assunto há bom tempo, já em 1940, no seu livro Paiquerê [Editora Guaíra, Curitiba]; também o fez en passant na sua História do Paraná [Editora Guaíra, Curitiba, 3ª edição]. Tudo isso demonstra o quanto são oportunos estudos a respeito de tal personagem e do misterioso Caminho do Peabiru, no qual o mito referido se envolve.

Faço uma observação inicial sobre o nome Tomé (Totmé; Tzotmé), porque costumeiramente é registrado como Somé e Sumé ou, acastelhanadamente, como Zumé. Ora, o nome do misterioso e lendário ser - ou de ambos, pois sustento a necessidade de que sejam dois -, era mais parecido com Tomé, mas pronunciado ao modo indígena, com esse “T” aspirado e nasalado à moda tupi-guarani. E quanto à segunda letra, a grafia lusa antiga usava “O” escrevendo Tomé, Somé, mas a verdade é que esse “O” soava como “U” ou para tal vogal se conduziu, como era e ainda o é generalizadamente para uma imensidão de palavras lusitanas e isso veio até nós no Brasil. Até nossa ortografia recente ainda consagrava essa permuta e ainda hoje a tolera. Porém, a pronúncia primitiva do nome Tomé ou o que seja, para se apurar-se qual tenha, pode coisa complicada. Assim é que Sara Garcia, a respeito da pronúncia tupi-guarani, mostra a consoante “T” com pronúncia algo similar ao português; idem quanto ao “S” se fosse o caso deste; porém, quanto às vogais  “O” e “U”, as faz acompanhar respectivamente de um “t” curto, resultando “Ot” e “Ut”.  O fato é que, ouvindo dos índios a pronúncia do nome do misterioso ente, os lusos e hispânicos não conseguiram imitá-los quanto ao “T” inicial de certos substantivos (ou parecido que fosse com tal nossa letra) e, ao ouvirem seu nome dito pelos índios, registraram (quanto à pronúncia), o que lhes pareceu Çumé e depois Sumé; e os espanhóis Zumé, com pronúncia quase similar. Agora é mais conhecido como Sumé e assim se achará na literatura. Aqui sou exceção. E acho que os especialistas – caso de Vera Garcia – devem ser consultados de modo expresso sobre qual pronúncia efetivamente, em tupi-guarani, corresponderia ao Çumé ou Sumé dos lusos, ou ao Zumé dos castelhanos. De qualquer modo, Tumé ou Tomé, Sumé ou Somé é figura de lenda, afamado e pesquisado, seguido e mesmo alvo de respeitosa veneração, seja por indígenas, seja por pessoas ligadas ao misticismo e ao esoterismo; seja, no mais, pelas lendas que se formaram a seu respeito. Enfim, muito já se escreveu sobre Tumé. Na verdade, sobre os dois deles, sem distingüi-los, ao contrário do que ora o faço, pois, especialmente agora, com a divulgação tamto intensa e corrente a respeito do Caminho do Peabiru, mais ainda é preciso saber coisas a respeito dessas duas figuras, o tido como autor do Peabiru e o outro, do mito das origens; e que imaginação dos índios fundiu num só e único Tomé.

Vejamos, assim, essa distinção a ser feita.

Não há apenas um Tumé, mas dois deles, no universo lendário dos tupi-guarani. De fato, uma lenda, antiquíssima, já falava dum primeiro Tomé ou Somé ou Sumé e apelo-o aqui, por isso, para fins de distinção, como sendo o Tomé I, próprio do mito das origens dos tupi-guarani; quanto ao outro, que considero posterior e tanto que os tupi-guaranis o indicavam – acertada ou erroneamente - como sendo o autor do Caminho do Peabiru, que deixou vestígios ainda parcialmente existentes, a este, apenas para fins de análise de cada qual, inclusive em termos comparativos dentre um e outro, apelo-o nesta obra por Tomé II. Peço que me perdoem por tal distinção numérico-romana e que ninguém confunda que eu esteja, aí, criando uma dinastia de Tomés tal e qual houve, no Egito, a dinastia dos Tutmés. Não seria de estranhar o intuito indígena de reportar-se no segundo caso a um retorno do primeiro. De fato, parece que há tal concepção de que o novo Tumé seja o mesmo antigo que ressurgiu. Mas ficou conhecida mesmo, dentre os brancos, para o povo em geral, a lenda do posterior e último deles. A mais antiga será mais facilmente encontrável nos manuais e dicionários de folclor, mas a do Tumé II (sob a grafia Sumé) e principalmente o confundindo com o santo cristão, caiu no domínio popular de há até pouco tempo. Ambas são da máxima importância cultural.

2 .        É lindíssima a lenda de Tumé II, a respeito do qual disseram os índios aos lusos, hispânicos e à gente de outros povos, que teria sido ele o autor, o construtor do Caminho do Peabiru. Essa lenda não é uma invenção dos europeus, pois jesuítas, historiadores e outros escritores a confirmaram. Tumé, chegara a predizer aos índios, primitivamente, a futura chegada dos europeus e a profetizar a destruição do Guaíra. Isso parece vincular o nosso Tumé II com a cultura andina, onde os incas tinham profecias sobre a vinda futura dos homens brancos. Chega mesmo a ser identificado com Huira Cocha (Viracocha, Wiracocha), a famosa divindade inca. Os melhores detalhes sobre essa lenda de Tumé II (que apelam indevidamente Sumé), diz o afamado e antigo escritor paranaense Romário Martins que no seu ver foram os que nos foram dados por Gentil de Moura, em 1910, numa comunicação ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e intitulada O Caminho do Paraguai a Santo André da Borda do Campo, onde seu autor estuda o itinerário de Ulrich Schmidl [R. Martins, opus cit.]. Verdade, porém, que o assunto de Tumé e o Peabiru já fora registrado antes por muitíssimos autores, a contar pelos primeiros jesuitas. Romário Martins observa que o cônego Fernandes Pinheiro sugeriu que a lenda de Tumé (Sumé) fosse criação dos jesuítas, porém, o Padre Rafael Galanti, no seu Compêndio de História do Brasil (Vol. I, p. 117) diz que a cópia der Newen Zeytung auss Pressillg I Landt deve ter sido impressa já em 1508, segundo Wiese; e já refere essa tradição na costa do Brasil [R. Martins, opus cit.]. A fundamentação histórica da precedência da lenda é firme, mas deve ser expurgada do seu conteúdo cristão. Tomé II nada tinha a ver com São Tomé, embora fosse santo a seu modo. E quanto a Tomé I, apesar de alguns bons serviços, era um mau caráter, segundo uma visão cristã de sua conduta imoral, inaplicável à sua remotíssima e lendária época.

3 .        O nosso bondoso e estudioso Padre Tarcísio Marchiori, no seu belíssimo livro “Terra dos Carijós” [Um romance regional indigenista, 1986], descreve para nós a primitiva cena da qual a lenda narrada pelos piagas índios deu testemunho. Resumo aqui, non in litteris: Sumé aparecera certa manhã, vindo mar, caminhando sobre as ondas e emoldurado pelo sol nascente. Era um ancião de barbas brancas, trajando comprida túnica e calçando sandálias nos pés. Curava os doentes, afastava as tempestades, ensinou os índios a cultivar o milho e o feijão, a curtir o aipim (mandioca mansa) para fazer a farinha, a fiar o algodão. Pela inveja dos pajés, flecharam-no no peito. Tranqüilo retirou a fecha e, caminhando sobre as ondas, foi-se embora. Também diz que acalmava o mar com o sinal da cruz, mas aí já penso que seja influência cristã nessa bela lenda índia. Os índios chegaram a desenhar cruzes nas rochas, é verdade, mas nada há a demonstrar um vínculo com a lenda de Tumé. As itacoatiaras são ricas de desenhos que convergem universalmente com culturas de todas as partes e tempos. Fascinante enfim essa lenda indígena sobre o misterioso Pay Sumé, cujo conhecimento vem desde a invasão lusa na costa brasileira.

Pelo registro deixado pelo Padre Manoel da Nóbrega, nas Cartas dos Primeiros Jesuítas do  Brasil [ano de 1549], narraram os tupinambás que, em tempos de seus antepassados, aportaram em suas terras dois homens, vindos sobre as águas do oceano, sendo um deles de barbas longas e brancas (talvez o companheiro não o fosse, já que concentram-se em Sumé) e muito bondoso e útil e ao qual apelavam Zomé, Çumé [ou Zumé, na edição org. por Serafim Leite, 1954]. Zumé ensinara-lhes o uso de raízes e ervas “das quais ainda hoje usam e com isso vivem bem”. Os índios quiseram matá-lo. Zomé fugiu, sob flechadas, que não o feriam. Deixou as marcas de seus passos nas pedras de um rio e Nóbrega quis vê-las e as encontrou. Teria, disse ele, ido para a Índia (evidente opinião do jesuita, crendo fosse São Tomé).

O nosso bom Pe. José de Anchieta também narra sobre o mesmo mito no escrito “Informações do Brasil e de suas Capitanias”. Ele também conta de que em tempos antigos teria chegado às terras dos tupinambás (e tamoios, creio) e andavam entre eles dois homens, um bom e outro mau e que “Ao bom chamaram “Çumé”, que deve ser o apóstolo São
Tomé” [Citações de Nóbrega e Anchieta e mais considerações a respeito da lenda de Sumé, sugiro leia-se o volumoso e excelente “Método Moderno de Tupi Antigo”, de Eduardo de Almeida Navarro, que complementa com estilo próprio essa preciosidade que  são as esgotadas obras tupinísticas do Pe. Lemos Barbosa [Vozes, Petrópolis, 1998, pgs. 345 a 364].

Frei Vicente Salvador também registrou o mito indígena de Tumé (Sumé), na sua “História do Brasil”. Diz ele que Tumé é que teria dado aos índios a famosa banana-de-são-tomé  [1627]. Em Cláudio Maria Thomas, no seu antigo “Elementos de História do Brasil” [Livraria Francisco Alves, Rio, 1926], li que os índios atribuíam a Tumé haver levantado uma cruz no solo e os selvícolas fizeram questão de mostrá-la aos lusos [Isso da cruz é totalmente duvidoso que pertencesse à lenda; parece acréscimo cristão]. Seria o apóstolo São Tomé e lhes teria dado a mandioca e ensinado o plantio do algodão. Mas pediu que, em paga, não comessem carne humana e que servissem ao único Deus e não aos demônios, que tivessem os homens apenas uma esposa. Querendo os índios matá-lo, seguiram-no até à praia, tendo Tumé, numa só passada, se transportado para a ilha de Maré, no litoral baiano, a meia légua do continente, sumindo depois. Divulgado isso tudo pelos jesuítas e talvez principalmente pela obra “Crônica da Compñia de Jesu do Estado do Brasil”, de Simão de Vasconcelos [1663], tal idéia de que se tratava do santo cristão impregnou a cultura colonial brasileira.

Muitos, enfim, escreveram sobre esse Tumé (ou Sumé como outros dizem). Frei André de Thevet registrou-o em francês como Sommay – vertendo para o francês o que achou escrito - e disse que, para os índios, ele era um grande pajé e caraíba. A. Métraux  estudou o mito no livro “La Religion des Tupinamba” [1928]. Perto da baía do Rio de Janeiro existia mesmo uma pedra comprida, da largura de uns cinco pés, na qual apareciam algumas marcas de vara ou vareta e pegadas de homem e os índios afirmavam serem sinais deixados pelo grande caraíba que lhes ensinara o uso do fogo (sic) e o plantio de raízes. Foi registrado também que os índios o apelavam Pay Sumé. Nada de estranhar, pois em tupi-guarani, pay, paí (o mesmo que pa`í, paié, paj, pajé) é papai, senhor, sacerdote, advinho, daí ser depois usado para designar os padres cristãos. O nome também foi registrado como Zumé por castelhanos, tal qual se anotou o mito no Paraguai, já que este é bem espalhado pela América do Sul.

4 .        Uma hipótese que avento é que Tomé II possa ter sido um muito venerado caraíba. Como recorda-nos o arqueólogo André Prous, sabe-se pouca coisa a respeito dos caraíbas. E, contudo, diz, a cada três ou quatro anos, cada aldeia tupi e guarani era visitada por um grupo deles. Eram homens misteriosos, que chegavam mascarados nas aldeias. Em cada uma, prelecionavam, dirigiam ritos especiais e, diz Prous, mesmo alguns deles levavam os povos para longas peregrinações em busca da sua Terra Sem Mal, a Yvy Marã Eym [Prous, “Arqueologia Brasileira”, p. 423/424]. Os caraíbas (karaíb) eram considerados como homens muito virtuosos; a própria palavra significa virtuoso e, num neologismo cristão, também o sentido de santo, bento. Vinham eles de lugares distantes e misteriosos. Talvez que os pajés e mesmo os caciques soubessem de onde; e que tinham tempo certo para aparecer. Talvez, constituíssem um quadro especializado e volante de índios, que visavam, assim, reaviventar as tradições. Assim explica Baptista Siqueira. Pregavam eles a existência da Terra Sem Mal, eram profetas dos risonhos dias futuros. Tão santos eram considerados que, chegados os europeus com os padres, todo homem branco, pelo menos antes de causarem decepções, eram apelados caraíbas, como fossem da estirpe daqueles. Os rituais de feitiços e outros, realizados pelos caraíbas – e pelos índios com eles – eram apelados karaí`-monhang.  Baptista Siqueira, no seu livro “Canto Metafísico”, tanto quanto possível busca um aprofundamento no assunto, mas também pouco consegue. Sua obra, todavia, é muito boa, abrindo-nos perspectivas sólidas, embora aqui e ali possamos discordar dele em alguma coisa. Siqueira, dentre outras coisas, faz boas análises de desenhos deixados pelos antigos,  como os que Hans Staden mandou fazer. Neles Siqueira vai enxergando fatos interessantes, como o rito das mútuas confissões dentre as mulheres, ordenadas pelos caraíbas, para que contassem, dentre si, as faltas cometidas contra os respectivos esposos; que aparecem justamente ali desenhados. Cronistas do século XVI deixaram notícias sobre os caraíbas. Baptista Siqueira crê que eles foram dizimados nas perseguições aos tamoios, até porque ataques mortais foram feitos justamente em momentos dessas reuniões pedagógicas que faziam. Baptista Caetano, analisando desenhos, julga ver que eles realizavam cerimônias publicas, com encantamentos; procediam a purificações coletivas; e sagrações de ídolos, caso dos maracás, dos quais cada homem tinha o seu e que eram protetores de cada guerreiro e, vez por outra, os pajés iam aos maracás, guardados numa choça especial, onde os consultava sobre o futuro e coisas mais. Os pajés, diz Baptista Siqueira, tornava advinhas as mulheres; e as ensinavam a interpretar os sonhos dos mensageiros do além. De todo modo, não vejo semelhança de pregações dentre os caraíbas – que ensinavam a educação tradicional, os costumes tradicionais e, portanto, também a guerra, a educação para o conflito tribal, a morte do adversário, honrosamente e em combate; ou sacrificando-o ou comendo sua carne, em rito próprio, como modo de alcançar a felicidade eterna; enquanto que Tomé II, opostamente, pregava o amor dentre os homens, a paz geral de todos os povos; a renúncia à guerra e à morte. Aliás, diante de tal pregação, espanta que não tenham os índios tentado matá-lo mais cedo; e que permaneceram cultuando sua memória, após o expulsarem. Fica aqui lançado, de todo modo, o lembrete para que se estudem esses relacionamentos todos. Claro que, a princípio, Tomé II está num grau muito superior, tanto que confundindo com o Tumé I do mito das origens. Além disso, sendo branco e bardudo, fugiria do aspecto normal de um caraíba indígena; estaria, isto sim, para um caraíba europeu. De algum modo, os povos tupis e guaranis censuraram-se, entenderam que Tomé apenas lhes queria fazer o bem; e é mais fácil pensar isso de barriga cheia, com milho e mandioca, batata e amendoim que, diz a lenda, ele os ensinou a plantar, a colher e a usar. É até interessante a analogia dentre Tomé II e Cristo, do qual aquele é como uma pré-figuração, visto que Cristo também se doou – embora que pessoalmente – na forma de alimento; e como mandava que se alimentasse aos pobres, nem se pode dizer que sua doação era exclusivamente espiritual. Na comunhão pelo Pão e pelo Vinho, que conduz à integração cristã, vejo uma analogia dessa, na comunhão dentre os membros das tribos tupis e guaranis, dentre si e como espírito de Grande Nação, em torno de uma refeição à base de mandioca ou milho, feijão ou batata, como o Pay Tomé lhes proporcionou.


5 .           Interessante notar que na região da Bahia, os tupis apelavam Mairapé, isto é, Caminho de Maíra, às estradas pré-colombianas, similares a estas que no Leste e no Centro e Sul os guaranis apelavam Peabiru e as atribuíam a Pay Tomé. Com isso, podemos estabelecer, na mitologia indígena, uma identificação dentre Pay Tomé e Maíra, este, como já dito, um herói mítico e que deveria ter as características que em geral se atribui a Tomé, o de ter cabelos brancos, visto que os tupis, mesmo apelando maíras a todos os europeus, davam tal nome preferentemente àqueles que, de qualquer nacionalidade européia, eram contudo loiros. E realmente, de Tomé se dizia que era alto e loiro. De Tomé, diz a lenda andina, que tendo ele ido a tal região e ali ensinado a agricultura, foi muito aclamado pelos nativos, porém, quando condenou a antropofagia e a poligamia, os homens decidem matá-lo, prendendo-o na região do lago Titicaca, dentro de uma cabana, à qual atearam fogo. Não lograram assassiná-lo e ele partiu pelo oceano Pacífico, prometendo retorno. No Brasil, como dito, tentaram em vão flechá-lo. Hernâni Donato sustentou que Tomé não foi um único indivíduo, porém, uma série deles, um grupo de monges escandinavos que, em meados do século XII, deixando seu bispado na Islândia, passou-se para a América do Norte, daí para a América Central, inclusive ilhas do Caribe; deste, para o nosso Estado do Maranhão e dali para o interior continental. Por isso que, diz, quando da expedição de Orellana ao Amazonas, segundo o relato de Frei Gaspar de Carvajal, os espanhóis se espantaram quando, ao invés da costumeira gente de pele bronzeada e cabelos negros, toparam com a chegada, na aldeia onde se encontravam, com quatro indivíduos brancos e de cabelos claros e longos até à cintura, sendo eles altos, um palmo a mais do que os cristãos, sendo todos eles muito bem educados, explendidamente vestidos e ornados com peças de ouro. Teriam dado muitos informes e conversado com eles em espanhol fluente, porém, não revelaram sua procedência, nem quem eram, nem qual seu destino [Donato, “No Brasil o Paraíso”, in Cadernos de Problemas Brasileiros, Nº 343, Jan./Fev. 2001].

3 comentários:

  1. Estou vendo aqui palavras vãs. Não adianta dizer que havia um caminho que ia até os andes se alguém não provar isso. "Ouvir dizer" não é História.É necessário pesquisa arqueológica séria in loco para a comprovação dessa rota. Os índios não tinham escrita e os portugueses colonizadores eram mais iletrados que os espanhóis. Lenda e comentários de comadre não é História, é necessário provar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O caminho já foi "re-trilhado", amigo. Trabalhos arqueológicos já foram feitos, e inúmeros resquícios do caminho original encontrados. Até mesmo as "pegadas" de Sumé nas pedras. Além dos próprios portugueses na época terem escrito sobre o caminho, em que os aventureiros se embrenhavam.

      Excluir
  2. Estou vendo aqui palavras vãs. Não adianta dizer que havia um caminho que ia até os andes se alguém não provar isso. "Ouvir dizer" não é História.É necessário pesquisa arqueológica séria in loco para a comprovação dessa rota. Os índios não tinham escrita e os portugueses colonizadores eram mais iletrados que os espanhóis. Lenda e comentários de comadre não é História, é necessário provar.

    ResponderExcluir