quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

PEABIRU: O MISTERIOSO CAMINHO MILENAR – 1ª parte

Rosana Bond (*)
Depois de anos de pesquisas lançamos, há pouco, o 1º volume do livro História do Caminho de Peabiru (**) e vimos que esta fabulosa estrada indígena continua sendo um desafio. Desafio e mistério. Mas há luzes surgindo ao fim do túnel, através das investigações de muitas pessoas. Pois embora este Caminho do Atlântico ao Pacífico siga sendo um tema de mais perguntas do que respostas, é possível se supor hoje, com mais clareza, que sua quilometragem é maior do que se calculava; que ele é mais antigo do que se pensava e que seus "construtores" são mais numerosos do que se imaginava.

Formado por uma rede de caminhos, o Peabiru foi uma destacada rota da América do Sul pré-colombiana, segundo afirmou o respeitado geógrafo Reinhard Maack, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
"Os índios denominaram de Peabiru o caminho transcontinental mais importante da época anterior ao descobrimento da América" – disse ele, em 1959.
O jornalista Samuel Guimarães da Costa, também do Paraná, escreveu em 1972 que "se o Egito é um presente do Nilo, a terra hoje paranaense é o legado de um caminho pré-histórico que se apagou na geografia da colônia".
Vamos um pouco além, achamos que boa parte da América do Sul também não deixa de ser um legado do Peabiru.
Não apenas o Paraná. Ou Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande, Mato Grosso do Sul, que são seus trechos mais (e menos) famosos no Brasil.
Afinal, ele passava também pelo Paraguai, Argentina e talvez Uruguai. E ainda pela Bolívia, Peru e Chile, se considerarmos correto que a via peabiruana principal se ligava aos caminhos pré-incas e incas.
Essa rota principal foi aquela leste-oeste-leste, usada notadamente por guaranis e por grupos andinos. Os guaranis também a chamavam de "Caminho Comprido" (Tapepuku ou Itapocu), além de outros nomes. Os trechos que se ligavam a ela, tidos como ramais, poderiam ter sido ser denominados de "Caminhos Curtos".Os incas possivelmente a conheciam como Inti Nhan, o "Caminho do Sol". Pois tudo indica que para este povo, e também para os guaranis, o Peabiru era um Caminho solar. 
Bem mais longo
O Peabiru era uma estrada indígena cujo trajeto "comprido", do Atlântico ao Pacífico (ou vice-versa) tinha aproximadamente 4000 km. Anos atrás, calculávamos que ela era menor, beirando os 3000 km.
Porém agora podemos cogitar que possuía cerca de 3.800 km até o litoral do Peru ou cerca de 4.300 até o litoral chileno, onde os guaranis provavelmente chegaram. Como era uma rede com diversos "Caminhos Curtos", seu comprimento total somava outros milhares de quilômetros.
A grosso modo, pode-se dizer que o roteiro principal do Peabiru era aquele que numa linha sudeste-noroeste-sudeste, acompanhava o movimento aparente do Sol, nascente-poente-nascente. De cabo a rabo, 4000 km !
No Brasil começava, ou terminava, em 3 pontos: litoral de Santa Catarina, litoral do Paraná e litoral de São Paulo.
Essa é outra "novidade" que os estudos andam revelando. Até pouco tempo atrás, afirmava-se que o Caminho percorria apenas as praias de S.Paulo e S.Catarina.
No entanto, têm surgido indícios de que os pontos eram 3. E que portanto se deve incluir a costa do Paraná, conforme já costumavam apontar Igor Chmyz (arqueólogo, UFPR) e Henrique Schmidlin (pesquisador em Arqueologia e História, membro do Departamento de Patrimônio Cultural da Secretaria da Cultura do PR).
Apoiando indiretamente Chmyz e Schmidlin, surgiram teses de universidades de outros estados nas décadas de 1990 e 2000, as quais porém, com pouca divulgação, demoraram a chegar às mãos dos pesquisadores peabiruanos.
Tais teses mostram a alta sacralidade que os guaranis conferiam a certas praias e ilhas do Paraná, bem como a caminhos que por ali passavam, fato que reforça a existência do Peabiru naquela área. Além disso, nossas próprias entrevistas em aldeias também confirmaram o papel do litoral paranaense na história ancestral do Caminho.
Baseando-se em escritos antigos e mapas, pode-se propor que a estrada de mar a mar, percorria o litoral do Brasil (S.Catarina, Paraná e S.Paulo), interior catarinense, interior paulista, interior paranaense, Mato Grosso do Sul, Paraguai, Bolívia, Argentina e litoral do Peru e do Chile. Obs: a costa e oeste gaúchos são outros trechos prováveis.
Ainda não foi possível descobrir o trajeto da totalidade do Caminho. No entanto, pesquisando diversos autores, pode-se supor que o Peabiru possuía 3 ou 4 vias principais solares (leste-oeste ou vice-versa) no Brasil e demais países.
Como exemplo, vamos dar o traçado (aproximado) de apenas uma delas, tomando como ponto de partida o Paraná, estado onde foram localizados sinais de sacralidade em trilhas do litoral e vestígios prováveis em Campina da Lagoa (por Igor Chmyz), Pitanga e entorno (por Gaioski) e região de Campo Mourão (pelo NECAPECAM). Ver mapa na página 11.
1ª Etapa (PR):
Paranaguá/Antonina/Morretes – S. José dos Pinhais – Curitiba – Campo Largo – Ponta Grossa – Tibagi – Reserva – Cândido de Abreu – Pitanga – Palmital – Guaraniaçu – Corbélia – Tupãssi – Assis Chateaubriand – Palotina – Guaíra/Terra Roxa

Paranaguá.


2ª Etapa (MS e Paraguai):
Rio Iguatemi – rio Paraguai (Puerto La Victoria, ex-Puerto Casado) – antigo Itatim (zona entre rios Apa e Taquari, MS ) – rio Paraguai (fronteira Corumbá – Puerto Suárez)
3ª Etapa (Bolívia):
Puerto Suarez – região sul de Santa Cruz de la Sierra – Potosí – rio Desaguadero – lago Titicaca
4ª Etapa (Peru e Chile):
Cacha – Cuzco – litoral do Pacífico (praias de Ica, ou de Arequipa, Moquegua, Tacna, no Peru; ou de Copiapó, no Chile) 


Lago de Copiapó - Chile
No estado do Paraná existiam pelo menos 4 ramais, na direção norte-sul ou sul-norte, que davam acesso às vias principais. Eram eles: o de Foz do Iguaçu, Campo Mourão, Castro e Campo do Tenente.
Esta matéria foi publicada na revista Cadernos da Trilha em sua primeira edição de abril de 2010. Vamos publica-la dividida em três partes.

3 comentários:

  1. Existem vestígios da parte do caminho que ligava o Paraguai à Bolívia?

    ResponderExcluir
  2. A ligação espiritual e geográfica entre a cidade de Crateús/CE e Mearim/MA não faz parte o peabiru?

    ResponderExcluir